Olho para o céu e vejo as nuvens iluminadas. Não dá cinco segundos, viro para o lado, a composição pincelada de branco, azul e cinza já está diferente. Eis uns dos motivos do Quintana ter concluído décadas atrás: quando der opinião, coloque a data. Tudo muda a toda hora. E, a cada instante, novos cenários são desvelados, novos formatos de nuvens são criados pelas correntes de ar.
Começo por aí para desenvencilhar algo que não me sai da cabeça. Como fazer uma ideia de projeto ser bem-sucedida se o contexto e o pensamento são tão passageiros? Um grupo de pessoas que se conhece, mas não profundamente, está pensando em formar uma associação, um grupo juridicamente constituído, só que sem fins lucrativos, algo como uma organização da sociedade civil. Nos tempos atuais, não basta ser empreendedor, é preciso sair da caixa, experimentar outras formas de conseguir acontecer.
Esse assunto me cativa por vários motivos, pois já me perguntei muitas vezes o motivo de causas nobres, como a proteção ambiental e a consciência social do jornalismo, unirem e afastarem gente que tem propósitos parecidos, porém seus jeitos de ser não combinam ou são incompatíveis. O que se ganha ao unir pessoas de perfis diferentes em torno de uma organização?
Depois de ter trabalhado para diversas ONGs, ter me envolvido em projetos voluntários e ter vivido inúmeras situações de construção coletiva, venho me dando conta de algumas coisas. Primeiro, que hoje o individualismo está exacerbado. O mundo carece de pessoas e grupos que se preocupem com o bem-estar da comunidade. A começar pelo condomínio: quem gosta (e aguenta) ter que resolver problemas do local onde mora? Já se perguntou se isso é um problema seu ou dos outros?
Tive muitas experiências edificantes em favor de causas na minha adolescência e juventude – desde conseguir levantar grana para a Apae até campanhas do biscoito do tempo em que era bandeirante – na comunidade onde nasci, em Cachoeira do Sul. Na escola pública onde fiz magistério, nos corais que já participei, aprendi horrores em como levantar grana, fazer as coisas acontecerem por necessidade. Talvez venha daí essa comichão dentro de mim de não desistir em tentar deixar o mundo um pouco melhor. Meus pais eram muito engajados, principalmente em ações da igreja. Se hoje existe um Centro de Pastoral na igreja Matriz, é porque meu pai batalhou muito para conseguir doações para a construção do espaço.
Mas o que isso tem a ver com a formação de uma associação? Por que tudo começa pela vontade, pela chama que cada um tem acesa dentro de si em integrar um ecossistema por algo maior que o seu cercado. Se a pessoa tem um espaço apenas para servir aos seus interesses, dificilmente vai se doar para algo que não traga vantagens a curto prazo.
Esta inquietação é tão pulsante dentro de mim que, em 2014, comecei uma pós-graduação da Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos (SBDG), na qual estudei e vivi na prática os vários lados (belos e perversos) do funcionamento de um grupo. Sim, os grupos têm modus operandi diversos e dá para compreender bem quem é quem com o passar do tempo. O que emerge retrata nuances e características conforme a cada composição. Ou seja, o tipo de liderança, a forma de se expressar, o comprometimento, uma série de fatores são indicativos dos valores e do jeito de ser de cada grupo.
Existem, inclusive, fórmulas de encontros como o Art of Hosting, que, em português, foi traduzido para a arte de anfitriar conversas significativas, em que há a aplicação de formatos distintos de conversa para que os participantes possam se expressar. Já conduzi um grupo de umas 30 pessoas de vários lados da cadeia da soja da região do Matopiba, em Palmas, em janeiro de 2019, em que ambientalistas, produtores rurais, técnicos de ONGs e pesquisadores conversaram e trocaram ideias durante quatro dias. Foi lindo e emocionante.
Já perdi as contas de quantas atividades e eventos organizei ou estive participando, em que as iniciativas tiveram sucesso ou foram um fracasso devido ao tipo de atuação das pessoas. É típico do fenômeno grupal as pessoas simplesmente se afastarem, não darem notícia, se algo as desagrada. Muitas vezes, é mais fácil simplesmente sumir do que verbalizar o que está incomodando. Existem vários tipos de silenciamento.
Por isso, há algumas fases que são importantes serem cumpridas tanto para reuniões (momentos cruciais para efetividade das ações) quanto para o funcionamento do grupo. Como está cada vez mais comum as pessoas estarem ansiosas, com angústias e estarem despreparadas para baixar, aterrissar no momento presente, é aconselhável fazer um check-in antes de qualquer coisa. Cada um se apresentar, dizer em menos de um minuto como está chegando. Até porque isso também ajuda as pessoas a se conhecerem minimamente.
Assim como é relevante ter esse momento de chegada, é importante ter um fechamento do encontro para que as pessoas confessem como estão saindo. Estou usando esse espaço para esse assunto porque sou facilitadora de grupos, mas talvez não seja claro para quem me lê que também presto esse tipo de serviço. Mas o que a comunicação, a arte, as coisas que eu faço têm a ver com isso, você deve estar se perguntando.
Acredito que é uma forma de arte saber manejar grupos. Organizar e proporcionar momentos inesquecíveis. Sou uma professora que está fora de sala de aula. E mais: um encontro bem conduzido é uma baita economia de energia, de tempo, de recursos, de paciência, de tudo. Pois sempre tem alguém que atravessa o samba e faz colocações inapropriadas ou acha que os outros precisam ouvir suas hipóteses, por mais esdrúxulas que possam ser. Isso faz parte do contexto.
Outro aspecto decisivo é a necessidade de pactuar as regras de funcionamento, tanto dos encontros quanto do funcionamento do próprio grupo. O que pode e não pode? Quanto mais participativo o processo for, maior o engajamento dos envolvidos.
Mas o que isso tem a ver com as nuvens? Ora, as correntes de ar podem apagar a chama a qualquer momento. Principalmente as escondidas dentro do peito. O vento muda a qualquer tempo. E aí, a vontade e a satisfação de fazer parte precisam ser mais fortes que uma rajada que chega sem avisar e levanta todo ímpeto de participar pelos ares. Os vínculos precisam estar ancorados. A confiança é algo a ser tecido com linhas que sustentam as relações.
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