Com que lente você enxerga?

Há vários ângulos de texturas diversas que dificilmente são abordadas pelo streaming, pelas redes sociais ou nos veículos de comunicação

Já reparou que usamos vários óculos e lentes no decorrer da vida? São dispositivos dados por outras pessoas ou que aparecem pelo caminho que delineiam a forma como enxergamos o que está em nossa volta e o horizonte. Porém, uma minoria dispõe de recursos e condições para ter acesso a vários tipos de lentes. Microscópios, então, estão cada vez mais difíceis de se encontrar. Alguns cientistas os utilizam para assuntos específicos. Porém, para outras áreas, geralmente acabam usando lupa, mas quando têm interesse.

Pois uso essa metáfora para chamar a atenção sobre quem media as informações, o que está acontecendo no mundo que você acessa. Procuro atiçar um pouco, pelo menos, a sua percepção sobre o que tem aparecido nas telas do caminho que você trilha. Nem ouso citar papel, livros, bulas. Vou tratar aqui daquilo que tem nos consumido diariamente: as telas de smartphones.

Há vários ângulos de texturas diversas que dificilmente são abordadas pelo streaming, pelas redes sociais ou nos veículos de comunicação. Os grupos proprietários de veículos de imprensa estão mais preocupados em se manter no circuito do que com a interpretação e a qualidade daquilo que colocam no ar.

O foco é agradar ao seu público, manter sua atenção. Isso é uma armadilha, pois tem muita coisa rolando que as pessoas não estão tendo a mínima noção do quanto é prejudicial para elas, para seus afetos, a longo prazo. Hoje, os grupos que dominam a audiência têm como donos conglomerados que têm interesses distintos ao de informar para o que importa ao bem comum, à coletividade.  Geralmente são financiados por empresas que não têm interesse na divulgação de dados que podem influenciar negativamente a obtenção do seu lucro. Isso pode parecer óbvio para quem está acostumado a usar determinados tipos de lentes.

Se no tempo analógico isso já acontecia, agora o negócio piorou de vez porque qualquer influencer, formador de opinião ou representante de um determinado segmento, ao pagar por espaço às big techs, consegue uma audiência que não tem como competir com quem não desembolsa grana para bancar esse “serviço”. Do jeito que os algoritmos, os grupos e as manipulações têm operado, estamos passando por situações inimagináveis. E, acredito, há gente usando óculos que formam cenários de retrocessos civilizatórios surreais, inacreditáveis.

Você imaginaria alguma vez na vida que um pai (policial militar) entrasse numa escola de educação infantil e arrancasse da parede o desenho de sua filha porque retratava algum símbolo de religião afro? Que lentes que esse indivíduo e seus colegas estão enxergando o processo de educação de um jardim de infância? Será que eles têm alguma noção do que estabelecem os parâmetros curriculares do país?

E o jeito nada educado de deputados (pagos com o nosso dinheiro, mas que tudo indica foram eleitos com recursos de interesses diferentes do que é tido como bem comum) que hostilizaram um repórter que atua na investigação da atuação da indústria fumageira? Foi o que aconteceu com Pedro Nakamura, do veículo O Joio e O Trigo, que já tinha sofrido perseguições durante a Expointer desse ano. Ele estava na abertura da COP11, um evento similar à COP30, só que voltado ao controle do tabaco, realizada em Genebra, Suíça. No primeiro dia da convenção, os deputados Rafael Pezenti (MDB/SC) e Marcelo Moraes (PL/RS) tripudiaram o profissional que estava exercendo o seu trabalho. Uma assessora de imprensa do SindiTabaco chegou a tentar desligar o gravador do colega. O encontro é realizado a cada dois anos para tratar da implementação do tratado global, criado em 2003 pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Qual a cor dos óculos desses sujeitos? Será de lentes enfumaçadas? Onde tem parado aquela noção básica de civilidade, de respeito?

E como estamos na finaleira desse grande evento batizado de COP30, você sabia que esta edição bateu o recorde de participação de lobistas? Ou seja, tem gente participando com os óculos fornecidos por segmentos que estão preocupados em perder dinheiro e espaço no contexto de diminuição de combustíveis fósseis. Pior mesmo são os setores que estão infiltrados em governos e que querem meter sua colher na negociação comandada pela ONU. É inegável que este formato de encontro precisa ser repensado. Como pode ser sustentável para os seres humanos a promoção de várias atividades tudoaomesmotempoagora? Com quem tenho falado, as pessoas estão esgotadas, querendo entender o que está acontecendo.

Minha sugestão é que, da próxima vez que aparecer alguém dando entrevista ou alguma propaganda procurar lhe vender algo com um preço duvidoso, você pense, repense no que pode estar por trás daquilo que está sendo veiculado. A humanidade precisa acordar (será que um dia consegue?), pois não tem acordo, roadmap (mapa do caminho) que dê conta dos desafios que acontecem na ponta. Sem educação, sem respeito ao trabalho da imprensa e ao consumo de combustíveis fósseis e seus derivados, estamos todos caminhando rumo ao precipício em meio à cerração. Para isso, precisamos de orientação, de gente e infraestrutura que trabalhe pelo bem comum, leia-se funcionários públicos, professores, gente que não encara o lucro acima de tudo e de todos. Pois não têm binóculo ou qualquer outro tipo de lente que consiga impedir que nos percamos desse labirinto que estamos tentando encontrar uma saída.

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Foto da Capa: Gerada por IA.

texto originalmente publicado na SLER

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