Precisamos reconhecer o quanto devemos nos abrir para aprender sobre os sentidos e o significado do carnaval
Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero mamá… Se a canoa não virar, olê, olê, olá… Alalaooooooo, mas que calooooooor… Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí. Essas e outras marchinhas embalaram tantos carnavais… Fizeram a felicidade de tanta gente! Inclusive eu, que na hora, ao ouvir essas músicas sendo cantadas na vizinhança do Areal da Baronesa, região onde moro em Porto Alegre, viajei no tempo dos carnavais em Cachoeira do Sul, minha amada cidade natal.
Vivi lá quando o carnaval pulsava na energia, nas entranhas da cidade, em vários clubes do município, desfiles de escolas de samba e blocos na rua. Era tudo muito diferente do que rola hoje por lá. A festança começava na sexta à noite, com o pré-carnaval da Sociedade Rio Branco. Naquela época, a folia era animada pela saudosa banda João Roberto, que dispunha de excelentes instrumentistas e cantores. E eu, assim como muitos cachoeirenses, não perdia um baile, seja de adulto ou infantil. Eram então cinco noites e duas tardes, que agitávamos sem perder a animação.
Para começo de conversa, o carnaval era um acontecimento na vida das pessoas. Um marco na história de muita gente. Eu já era “mocinha” com 13, mas lá em casa, minha mãe não permitiu que eu fosse ao baile antes dos 14. Uma das minhas irmãs, por exemplo, queria ir, mas minha mãe determinou: só vais se tu parares de chupar o dedo.
Outra irmã fez uma aposta com meu pai: se passasse em todas as matérias – algo que seria bem difícil de acontecer – ele iria se associar ao Clube Comercial, que tinha uma programação recheada de festas e um ótimo carnaval (ah, os mingaus dançantes de domingo à tarde…). Essa minha irmã foi até Princesa do Carnaval de Cachoeira, e muito brinquei com a fantasia dela repleta de lantejoulas e pedrarias. Ah, meu primeiro beijo foi num carnaval…
Lembrei disso e muito mais, porque pela primeira vez na vida eu parei nesse emblemático feriadão. Ou melhor, fui obrigada a pendurar os pisantes (pra não dizer chuteiras) nessa época, em que geralmente estou fazendo alguma trilha ou curtindo uma praia. Nem lembro a última vez que pulei carnaval.
Carnaval para todos verem
E ficar em casa, ouvindo o som da Cidade Baixa de dia e assistindo aos desfiles das escolas do grupo especial à noite, me oportunizou acessar tantas coisas, que vou tentar confidenciar para vocês. Este texto é escrito por alguém que está cada vez mais convencida de que .
Se na minha infância, adolescência e juventude, não saquei as tantas mensagens que o carnaval proporcionava, hoje estou tentando levantar as antenas para captar as entrelinhas, pois o sentido da festa é muito mais do que simplesmente sair a dançar e festejar por aí.
Quem viveu aqueles tempos da década de 70 e 80 no interior do Rio Grande do Sul foi feliz em vários sentidos. Sem cercados, sem neuras de segurança e com muita liberdade, eu transitava em diversas turmas. Como as famílias eram numerosas, cada rua ou quadra tinha sua própria turma.
No meu caso, tive o privilégio de ter participado de blocos infantis capitaneados pela talentosa Valquíria Garcia, vizinha e mãe das amigas Fernanda e Carina (Andreza era muito pequena). A cada carnaval, ela inventava narrativas, fantasias e junções altamente originais. Lembro até hoje do Noivo Sumiu, com a marchinha criada por ela: “Olá, quem foi que viu, o meu noivo que sumiu, ele estava na igreja, quando lá me viu, levou um susto e sumiu…”. A indumentária tinha um vestido de alcinha de cetim branco, um véu curto de tule, luvas e chinelo com tiras brancas que subiam pela perna. Mas a fantasia que mais me marcou, de fato, foi a que tivemos que pintar o corpo, o rosto de carvão, e ainda usar uma peruca de meia-calça com lã preta, cheia de penduricalhos de plástico colorido. Tudo para incorporarmos o astral da música e cantarmos “Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela, será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela”. Lembrei de chorar, borrar o rosto, porque ninguém me reconhecia! kkkk
A disputa entre as fantasias e os blocos, tanto no infantil quanto no baile adulto, era acirrada na Sociedade Rio Branco. E a Valquíria era mestre em ganhar troféus no infantil. Depois, quando fiquei maior, fiz parte de outros blocos, o Samba, Suor e Cerveja e o Vote em Mim. Esses blocos não eram nem perto dos blocos mais premiados, como o chamado Turma do Funil e o Vai tê que dá. Enfim, esses blocos tinham quase uma centena ou mais de participantes. A fantasia era geralmente uma camiseta, um vestido ou uma canga. Todas as noites tinha esquenta antes dos bailes e uma função que rendia diversos preparativos antes e durante os dias de festa.
Lembro que teve uma época que até me envolvi com a montagem da decoração do salão, sob a batuta da inesquecível Maria Teresa Carvalho. Ou seja, aqueles tempos de carnaval deixaram saudade. Depois que saí de Cachoeira, perdi o fio da meada para entender os motivos que levaram a festa mais popular do país a ter esmaecido tanto na terrinha.
Carnaval como espectadora
Neste ano, por circunstâncias da vida, estou vendo pela primeira vez alguns desfiles do grupo especial do Rio. Antes nunca tive interesse e nem parei para analisar ângulos desse universo que movimenta milhões de pessoas e muita grana na cidade batizada de maravilhosa. Nunca estive nos carnavais do Rio, nem de Salvador. Mas, por estar parada, estou procurando saber das notícias da imprensa, ler reportagens e saber mais sobre os temas das escolas.
E cada desfile, cada proposta é uma aula para testar conhecimentos, aguçar a sensibilidade e fazer conexões. Estou absolutamente convencida de que, a partir dessa narrativa que as escolas oferecem, é preciso cada vez mais sabermos interpretar os significantes, os ícones, os símbolos do que querem comunicar. Mas como isso é difícil. Estamos atravessando uma crise de interpretação e qualquer coisa pode virar pólvora para o inimigo. Os desfiles são recheados de indicadores que representam o nosso país. E isso não é de hoje. Há muito tempo, o carnaval escracha questões que se sabe, mas são veladas.
Com tantas palavras de distintas culturas afro sendo empregadas nos enredos, é cada vez mais urgente que brancos, pardos, negros, amarelos, gente de todas as cores, tenhamos um letramento sobre o que significa essa diversidade de práticas religiosas que foram mostradas na Sapucaí. É tão comovente e lindo ver as agremiações honrando os saberes e o legado de gente que fez e faz a diferença, como o mestre Ciça, que ajudou a levar o título de campeã à Viradouro, com o tema “Pra cima, Ciça”; o multiartista Heitor dos Prazeres; a artista, professora e carnavalesca Rosa Magalhães; a escritora e multiartista Carolina Maria de Jesus; ao maravilhoso cantor Ney Matogrosso e à inesquecível Rita Lee.
O povo brasileiro precisa também ter muita gratidão à herança da cultura negra em tantos aspectos da nossa vida. Está mais do que na hora de nós, brancas, descendentes de europeias, reconhecermos que o Brasil tem essa riqueza graças à força, à criatividade, à garra dos distintos povos negros.
A história do Príncipe Custódio precisa ser contada e recontada várias vezes, pois nem nós, gaúchos, a conhecíamos. Inclusive, foi uma pena que não citaram as presenças dos representantes do Maçambique de Osório, a Rainha Ginga, o Rei do Congo e a neta do Príncipe Custódio no carro alegórico da Portela. E essa narrativa só veio à tona, para todo mundo saber, porque a inteligência periférica da Portela se interessou em mostrar o quanto a negritude é relevante no Rio Grande do Sul. Teria alguma outra forma mais original de contar essa trajetória? Quem sabe uma novela? Viva o Carnaval, viva a negritude.
Participe da campanha Outros Lados do Contexto e colabore com o financiamento coletivo para que eu possa continuar escrevendo no Sler. Agradeço demais o apoio, principalmente de mulheres que vêm me apoiando de distintas formas, seja lendo, compartilhando ou fazendo doação em dinheiro todos os meses. Clique no link abaixo:
Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI. Foto da Capa: Mestre Ciça / Wikipedia (Fernando Frazão/Agência Brasil) Texto originalmente publicado na SLER




