Por onde ela passava, ficava um rastro de doçura e delicadeza. Maria Augusta Teixeira, simplesmente Guta Teixeira, nos deixou de forma abrupta no dia 20 de fevereiro, aos 66 anos. Ela estava em preparativos para fazer uma cirurgia de coluna. Tinha feito exames naquela mesma semana e o cardiologista havia a liberado para o procedimento. Só que na sexta de manhã cedo, por volta das 7h30, se sentiu mal enquanto estava no banheiro. Caiu e, quando acordou brevemente, chamou pela irmã Regina. A irmã tentou de tudo para reanimá-la. Chamou uma vizinha médica, o SOS Unimed. Mas nada a fez voltar. Um ataque cardíaco fulminante levou a querida Guta.
Fazia tempo que não tinha contato com ela. Nem lembro quantos anos. Mas sempre que nos encontrávamos era uma festa. Fomos muito próximas em diferentes momentos da vida. E a partida dela assim, desse jeito, mexeu demais comigo e com pessoas que a conheciam. Postei em uma rede social o convite dos atos fúnebres, pois fui uma das primeiras a ser avisada por um amigo em comum e dezenas de pessoas se manifestaram. A Guta era de uma simpatia e alegria que é difícil ela ter cultivado inimizades.
A Guta deixou um legado que precisa ser reconhecido. Mesmo tendo feito a Faculdade de Direito, foi no jornalismo que ela se realizou. Tomou a iniciativa de fazer muitas coisas inovadoras. Em um tempo analógico, onde começavam a surgir os CDs e as fitas cassete dominavam os aparelhos de som.
Trabalhei com ela quando fui estagiária da FM Cultura, nos bons tempos de valorização da cultura, ainda nos primeiros anos da rádio. Volta e meia, a ajudava a encontrar algum LP para o programa “As músicas que fizeram a sua cabeça”, que tinha a apresentação da Ivete Brandalise.
Os entrevistados comentavam as músicas e nós, da produção, precisávamos nos virar para achar. Às vezes eram preciosidades, que a discoteca da rádio não dispunha. E aí é que a pesquisa e uma busca à rede de contatos resolviam as demandas. Naquele tempo, a rádio tinha um setor de pesquisa, tocado pelo Marcelo Del Fabro, que era um grande conhecedor de música. Ah, e claro, a grade da rádio dispunha de uma extensa programação com muito conteúdo sobre efemérides, personalidades de várias linguagens das artes.
A Guta me ampliou horizontes para questões que até então eu não tinha a menor ideia. Foi uma pioneira em abordar assuntos, até então inviabilizados, como lembra o então colega de produção Luiz Henrique Fontoura. Segundo ele, foi ela que introduziu temas como direito dos indígenas, cidadania, muitos novos compositores locais na programação da rádio.
Luiz Henrique recorda que no programa Clave do Sul, a Guta abriu espaço para vários artistas da Música Popular Gaúcha (MPG). “Ela colocou no ar em primeira mão artistas como Nenung e Yang Zan, do The Darma Lovers, entre vários outros. Ela também rodou a coletânea histórica Porto Reggae (1991), que trazia os pioneiros do reggae, com bandas como Produto Nacional, Motivos Óbvios, Facção Brasil e Bebeto Alves e Troupe. Além disso, ela teve ainda um programa espiritualista e o programa “Construção da Cidadania”, comenta Luiz Henrique Fontoura. Tudo isso numa época em que as produções locais engatinhavam.
A produtora cultural e artista Dinorah Araújo reforça ainda a sua atuação na Rádio da Universidade como estagiária e, depois, quando retornou como funcionária da UFRGS, criou um programa que ela produzia e apresentava sobre meio ambiente, além do programa sobre patrimônio. “A Guta sabia de música popular brasileira, MPG, e transitava por todas as linguagens artísticas. Acompanhava de perto a trajetória dos artistas locais, mas também sabia muito sobre os nacionais. Humilde, ela sempre incluiu as pessoas que estavam começando. Tratava todos da mesma forma e muito bem. Quando se falava quase nada sobre a preservação do planeta, a Guta já nos ensinava e tinha hábitos diferenciados, por exemplo, em relação à separação do lixo. Aprendi com ela sobre muitos aspectos da vida, e serei eternamente grata aos seus ensinamentos, em especial sobre humanidade,” escreveu em uma de suas redes sociais.
Guta iluminava os caminhos por onde passava. Dona de um sorriso lindo, depois que saiu da FM Cultura, em uma fase em que rumores de demissões começaram (e seguem até hoje), trabalhou na comunicação do Pró-Guaíba, um dos maiores programas de despoluição da bacia hidrográfica do Guaíba, durante o governo Olívio. Ainda produziu e apresentou o Sintonia da Terra, juntamente com Gisele Neuls e Adriane Rodrigues, pelo Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul, na Rádio da Universidade. Como ativista, Guta também foi conselheira da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).
Ela sempre foi engajada nas pautas que a tocavam. Clarissa Aguiar, que trabalhou com ela na UFRGS, conta que a Guta se dedicava intensamente à participação da Semana da África que ocorria todos os anos na universidade. “Na gestão ambiental, organizamos juntas uma atividade na semana do meio ambiente. Depois, a Jussara Porto (UFRGS), a Guta e eu idealizamos um evento da gestão ambiental onde apresentamos o filme Lixo Extraordinário do Vik Muniz na Faculdade de Arquitetura, com debate após o filme. A ideia era fazer atividades diversas na semana do meio ambiente, mas depois isso não seguiu adiante por falta de recursos”.
No seu último período de UFRGS, antes de se aposentar, ela trabalhou no Departamento de Educação e Desenvolvimento Social da universidade, que publicou uma nota em seu perfil do Instagram lamentando a perda da colega. Pelo número de comentários, dá para perceber o quanto ela é querida pela comunidade acadêmica.
Atualmente, Guta dividia seu tempo como facilitadora de meditação do Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB) e também cuidava da divulgação da agenda das atividades online do CEBB Porto Alegre. Ela deixa duas irmãs, um sobrinho e muita saudade.
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