Estas e outras indagações incômodas ficam latejando na minha cabeça, ainda mais depois de ter participado da manifestação de domingo, dia 13 de julho

O que toca a mente e o coração para se despertar a consciência socioambiental e ecológica? O que contribui para aqueles que respiram perceberem que podem ficar sem ar decente para os pulmões? Como sensibilizar sobre os riscos que se corre com os retrocessos da legislação, que prevê a proteção daqueles que não têm nada a ver com quem está gerando danos ao ambiente? Há muitas perguntas que há décadas vêm me inquietando.
Estas e outras indagações incômodas ficam latejando na minha cabeça, ainda mais depois de ter participado da manifestação de domingo, dia 13 de julho (confere a entrevista que fiz lá). Foi mais um ato contra a proposta de votação do PL2159 (aprovado pela Câmara em 17 de julho), batizado de PL da Devastação por ambientalistas. O dispositivo desconfigura o licenciamento ambiental, um importante instrumento que ameniza os impactos dos empreendimentos com potencial poluidor.
Quem estava passeando no Bric no domingo não estava interessado em saber o que aquele bando estava falando. Até porque a maneira dos que tiveram a oportunidade de usar o microfone não era atrativa para esses tempos. A voz era a mesma das passeatas e de experiências no movimento sindical. Precisamos urgentemente investigar, experimentar outros formatos para seduzir interessados à pauta socioambiental.
A junção do dia 13 foi diferente do dia 1º de junho (confira a cobertura sobre aquele dia aqui). Dessa vez contou com a percussão do grupo Umbutu, de Alvorada, teve uma sonorização mais potente, mas com muitas ausências de gente que marcou presença naquele primeiro evento. Tá certo que nesse domingo, o sol não tinha dado as caras, estava muito frio. Aí fica mais difícil fazer com que as pessoas se mobilizem por uma causa que vá além dos seus interesses pessoais.
No atual contexto em que tudo é volátil, a percepção dos donos de telas é sensível a qualquer estímulo que viralize nas redes. É cada vez mais desafiador chamar atenção para o que é essencial para a nossa sobrevivência, nossa qualidade de vida em relação às artimanhas da superficialidade.
Não quero ficar julgando os que deveriam ter ido ou aqueles que não estão nem aí. Porém, tento compreender o comportamento dos seres pensantes, resultado do atravessamento de diversos contextos. Quem está preocupado em sobreviver, correr atrás do almoço e depois da janta, dificilmente vai se dedicar a causas que estão além das suas possibilidades. Só que creio que esse não é o seu caso, querida leitora, querido leitor.
Creio que quem se importa em como melhorar o mundo, para deixá-lo um pouco melhor para seus filhos e netas e netos, já deve ter se perguntado: que mecanismos, estratégias podem ser usados para despertar mais atenção do significado do ponto de não retorno, do aumento da temperatura acima do 1,5 grau? (Se você não tem ideia do que é isso, vale pesquisar).
Como procuro conjugar o verbo esperançar, sempre que possível, creio que precisamos usar nossas lanternas, isqueiros ou até mesmo fósforos, para colocar luz em iniciativas que podem nos ajudar a enxergar alternativas a esse caos em que estamos emaranhados. É imperativo buscar caminhos para nossa sustentabilidade hoje e no futuro. Precisamos exercitar nosso pensamento com sementes de consciência perante a nossa condição humana.
Eis que uma das alternativas pode ser justamente àqueles que têm um pouco mais de noção do contexto do quanto tudo está interligado, conversarem, proporem atividades, procurarem fomentar em pessoas, de preferência fora da bolha ambientalista, o interesse para a situação da natureza. Acredito que, por meios como livros, audiovisuais, postagens etc. é possível puxar um papo, evidenciar narrativas sobre o quanto estamos enredados em conjunturas que estão mais trazendo prejuízos do que benefícios a nossa espécie.
Aprendi com o Augusto Carneiro o quanto é significativo distribuir, circular textos, informações que fazem a diferença. O Carneiro (se você nunca ouviu falar nele, vale pesquisar), muito antes de existir internet ou redes sociais, agia como um hub de disseminação de informações por onde circulava. Ele conseguia fazer cópias da cota de algum deputado estadual ou vereador de textos que julgava interessantes. Dava para qualquer pessoa que manifestasse interesse pelo assunto abordado.
Água até aqui
Um livro que achei genial, ao mesmo tempo tocante, que merece ser reconhecido e circular é o Água até aqui: histórias de luta, sobrevivência e recomeço da maior tragédia climática do Rio Grande do Sul, do Pablito Aguiar. Idealizado pela jornalista e escritora Eliane Brum, a proposta editorial une talento e esforços da Editora Arquipélago e da Sumaúma, um projeto que tem tudo para inaugurar um selo editorial.
A sacada é a transformação de histórias reais em quadrinhos, com roteiros enxutos, feitos pelo autor com base em fotos e entrevistas. Achei interessantíssimo e já fiquei pensando em usar essa linguagem para traduzir letramentos fundamentais para ampliar a percepção das pessoas, já que estou pesquisando e aprendendo sobre comunicação de risco.
Geralmente, as ilustrações são empregadas para deixar mais claros contextos complexos. Como já produzi, escrevi e editei diversas (na verdade, nunca contei) cartilhas, livretos, folders, jornais etc., sei bem o quanto é instigante e desafiador desenvolver um projeto similar. Na biblioteca do meu site tem alguns .
No caso do trabalho do Pablo Diego dos Santos de Aguiar, um moço de 37 anos, que começou a fazer quadrinhos em 2016, quando trabalhava no jornal A Semana, de Alvorada, o conteúdo aborda lados tristes, inusitados e faces da resiliência de gente que vivenciou a catástrofe de 2024. Ele fez o curso de comunicação digital da Unisinos.
Por tudo isso e mais um pouco, recomendo: esse livro vale a pena adquirir e circular para que todo mundo que sofreu aquele momento conheça personagens inspiradores. E para quem é de fora ter noção do quanto precisamos aprender com quem passou por aqui.
Para encerrar, copio as palavras da ilustre ijuiense Eliane Brum que constam na contracapa do livro de 136 páginas:
“As histórias contadas neste livro-reportagem não são passado. Nem suas dores e traumas passaram, nem a enchente de 2024 permanecerá como um acontecimento isolado como foi a de 1941. A memória precisa mover uma força ainda maior do que a das águas para nos prepararmos para as outras inundações que virão pelas mãos de uma minoria de humanos que destruiu e segue destruindo a natureza. A memória deve se tornar instrumento para barrar os saqueadores da vida, para proteger o que resta de biomas, para replantar o que foi arrancado.”
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