Pesquisa questiona sobre o sentimento de apego à nossa terra e leva a reflexões em pleno setembro
Apesar de tudo, gaúcha. Assim fui apresentada em uma reunião de trabalho em Santarém, no Pará. Não lembro exatamente o ano, na época estava prestando serviços em um projeto que procurava implementar o Distrito Florestal Sustentável da BR-163. A ideia era consolidar diferentes tipos de Unidades de Conservação, formando um mosaico de parques, reservas extrativistas em um extenso corredor ecológico com a valorização das iniciativas da sociedade civil em favor do meio ambiente e da consolidação de cadeias produtivas de produtos da sociobiodiversidade. Tempos do segundo governo Lula, quando ainda não se vivia essa situação de ataques de todos os lados às causas socioambientais (o Congresso Nacional era muito melhor naquele tempo, por incrível que pareça).
No Norte, em muitos casos, os gaúchos não são bem quistos. Isso me causou uma certa estranheza. Depois de um tempo, fui compreender que os conterrâneos chegaram no Centro Oeste e no Norte desmerecendo os conhecimentos locais, fundavam CTGs e se colocavam muitas vezes como os que sabem, sem considerar o contexto local. Uma visão bem antropocêntrica. De achar que o modus operandi importado é o certo, o que não é visto com suas lentes eurocêntricas, não vale (aliás, isso rola direto na maior parte das vezes).
Só que tem tanta coisa que os gaúchos herdaram dos povos originários… E essa mesma persona, que adora um chimarrão, despreza e ataca os indígenas que tentam retomar as áreas que foram expulsos.
Todo esse emaranhado de situações me sensibiliza. Afinal, não sou apenas nascida no Rio Grande do Sul, eu fui gerada e vim ao mundo no centro do Estado, em Cachoeira do Sul. Um cidade que tem uma mistura de etnias, com forte influência de alemães, italianos, portugueses e afrodescendentes.
Resolvi tratar desse assunto, em pleno setembro, porque recebi o link para responder uma pesquisa sobre o orgulho de ser gaúcha. Confesso, que as perguntas mexeram comigo. Porque já tive muito orgulho de ter nascido nessa terra de características tão peculiares. A pesquisa está sendo feita pela jornalista Karen Horn, que pretende propor pautas com os resultados.
De prenda a ambientalista
Na minha adolescência e juventude, a Semana Farroupilha bombava em Cachoeira. Frequentei CTGs, dancei em grupo de dança tradicionalista, não perdia os fandangos da programação envolvendo o 20 de Setembro. Naquela época, eram realizados dois bailes por noite durante esse período. Além disso, tive namorado e muitos amigos que respiravam o ar do campo, viviam de bombacha. O convívio com a lida campeira eu tive por tabela, já que nem minha mãe, nem meu pai tomavam chimarrão ou valorizavam esses costumes.
Hoje, no entanto, meu sentimento em relação a essa “aura’ de ter nascido nessa terra oscila. Se fosse uma escala de cores do preto ao branco, ora está mais claro, ou mais escuro. Difícil ser só de uma tonalidade.
Lembro que quando estudei na Dinamarca, na The Internacional People’s College, dizia que morava no Estado mais europeu do Brasil. Achava que era grande coisa. Só que depois daquele maravilhoso ano de 1996, que traz saudade principalmente porque um dólar valia um real, eu li, aprendi, constatei tanta coisa que hoje esse sentimento de estufar o peito por ser gaúcha ficou para trás.
Pode ter ficado preso a alguma cerca de arame farpado que cruzei pelo caminho. Ou então perdi depois de viajar, ter morado fora do Estado e convivido com amigas de tantos outros lugares. Desconfio que quem tem orgulho de ser gaúcha, hoje, ou nunca morou fora do RS ou não conhece nossa história por outros lados do script convencional.
Sem falar que o Estado tem sido atropelado em vários quesitos. Suspeito que seja justamente por sua cultura do se achar melhor que os outros. Bueno, vou tentar argumentar os meus motivos para ter até vergonha em alguns momentos. Se por aqui nasceu o movimento ambientalista, a legislação que regula agrotóxicos, que cria o Sistema de Recursos Hídricos, também é o lugar onde que estão desmontando importantes conquistas em favor da qualidade de vida. Pior, que estão sendo gestados e implantados retrocessos contra a civilidade e o bem comum.
A Lei das Águas, por exemplo, que consolidou o primeiro Comitê de Bacia do País, o Comitê Sinos, não só não foi implementada como foi enfraquecida. Nossa política de recursos hídricos teve o então festejado “parlamento das águas” de outrora, completamente desidratado, o funcionamento dos comitês vai aos trancos e barrancos. O que isso significa? Até hoje não se considera o planejamento conforme o território. O que vence, na prática, é a lei do mais forte sob os pontos político e econômico, especialmente pressionando prefeituras muitas vezes sem estrutura técnica. Resultado disso pode ser constatado no maior desastre hidroclimatologico do Brasil em maio de 2024, quando quase todos os municípios sofreram com as chuvas torrenciais.
Além do aspecto ambiental, o RS deixou de ser destaque em vários pontos. Na forma de governar, com o Orçamento Participativo é um exemplo emblemático. Já tivemos Fórum Social Mundial em Porto Alegre. E já tive muito orgulho de apresentar a cidade para amigas de outras paragens.
Uma vez, consegui levar minha amiga Maria Zulmira de Souza (a saber a criadora do programa Repórter Eco, da TV Cultura) para andar de barco nas lagoas do Litoral Norte. Depois subimos o Morro da Borússia e nos deparamos com figueiras centenárias. Que orgulho de mostrar nossa planície costeira, com um rosário de lagoas e ambientes únicos que não existem em outros recantos do país.
Outro motivo de orgulho era o Atelier Livre de Porto Alegre, um local ímpar, que hoje está com uma proposta bem diferente de funcionamento. Confesso que não tenho conseguido acompanhar mais a programação desse importante aparelho cultural da cidade. Mas garanto: não só o Atelier Livre, mas o próprio estado do Instituto de Artes da UFRGS envergonha quem sabe do potencial que temos.
Sei que temos instituições que devem nos orgulhar muito, como o próprio sistema de saúde implantado na Capital, que também já foi melhor. Mas que segue sendo requisitado por municípios vizinhos, acostumados com a tal ambulancioterapia.
Muita gente também vem de vários lugares do Brasil para se tratar na Santa Casa de Misericórdia, no Hospital de Clínicas ou outro grande conglomerado de tratamentos médicos. Tenho muito respeito e admiração também ao Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre. Todas vezes que precisei ser atendida lá ou que levei alguém, fui bem atendida.
Ainda acho incríveis nossas feiras orgânicas, com uma rede de produtores e consumidores preocupados com o bem viver sistêmico. Temos importantes universidades, empresas, iniciativas regadas a muita história e reconhecimento ao longo do tempo. Realmente torço para que cada vez mais reacenda a chama do pertencimento.
Confesso que reacendeu a chama do pertencimento quando participei do evento Vozes da Fecors (Federação de Coros do RS) na Casa de Cultura Mario Quintana, quando foi celebrado o Dia do Patrimônio. Foi emocionante estar no meio de tanta gente cantando e dançando hits da música produzida no RS.
Creio que os tomadores de decisão precisam se abrir mais, valorizar as pesquisas, o corpo técnico de quem vive e sabe das coisas daqui. Só que daí, precisa usar outras cores da paleta, manejar texturas diversas. Compreender que vivemos no único Estado com Pampa e Mata Atlântica. O único sem mangue. Com ambientes especiais que nem sequer são reconhecidos e valorizados pelo povo e por quem está no comando. É imperativo sair das tonalidades entre o cinza e o branco.
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