Das imigrações e das diásporas

Precisamos todos de um letramento, de uma alfabetização sobre temas como o racismo e o contexto climático ambiental

A coluna passada, que escrevi sobre o livro Antonio, Cecília e eu, da Rosane Tremea, provocou retornos que me mobilizam a escrever esse texto. Recebi mensagens que mexeram comigo. Os aspectos abordados, por pessoas que me são caras, mas que não me conhecem tão bem, nem minha família, a minha história etc, me fazem elencar algumas questões.

Uma amiga me mandou pelo zap o seguinte:

Oi amiga, bom dia. Passei uma fase de bastante trabalho, mas vou voltar a ler as matérias que elaboras com tanto cuidado. Gostaria muito de poder fazer uma reflexão sobre as condições distintas formas de chegada dos povos que nos constituem, principalmente as condições dos negros capturados e escravizados e das outras colonizadores. Dificilmente chegaremos à reparação sem termos as memórias preservadas e constantemente falarmos sobre. Teu texto me provocou a pensar.

Na hora, percebi que mesmo tendo escrito no texto de que nós somos uma mistura de etnias, de gente de várias partes do mundo e ter afirmado que aqueles que foram arrancados da África não têm a mesma condição que quem tem descendência de europeus, o texto impactou algumas pessoas de um jeito que não imaginaria.

Uma colega jornalista de outro Estado me mandou:

Pena que os descendentes de africanos escravizados não têm direito aos privilégios que a branquitude dá até de ter uma história contada de papel passado. Mas muito válido!

Sim, mas uma vez que vc tem ao menos um sobrenome europeu pra se aprofundar na história, meio que o resto não importa muito né 😅 a galera se agarra no sobrenome alemão ou italiano e o resto é o resto 😅fui entender isso depois de morar no Sul 🫠 mas enfim, é isso aí!

O contexto da diáspora negra é algo bem complexo. Dificilmente quem é branco e vive entre descendentes de europeus consegue ter a dimensão do quanto devemos uma reparação aos povos que foram arrastados para cá.

Sou o que sou porque tive uma segunda mãe com raízes africanas. Minha genitora trabalhava de manhã, de tarde e de noite e quem me cuidou boa tarde da vida foi a Laide. E senti por tabela o quanto pessoas como ela são invisibilizadas pelo jeito que outros a tratavam. Numa festa de final de ano em que ela passou comigo na minha casa, teve gente que nem a cumprimentou. Mas o pior mesmo foi quando ela partiu. Eu fiquei arrasada, destroçada e nem pêsames recebi de muitos conhecidos e amigos.

Até porque tenho sobrinhos e sobrinhas que têm pais com ascendência africana. Tenho primas casadas com negros. Tenho amigas e amigos negros que adoro. Em Cachoeira, convivi com vizinhos, colegas e amigos negros, muitas vezes com em meio a um racismo velado. E frequentando a disciplina do Mestrado em Comunicação na PUCRS com o professor Deivison Campos esse tema tomou outras proporções dentro de mim.

Por indicação do professor, li Uma Ecologia Decolonial: pensar a partir do mundo caribenho, de Malcom Ferdinand (Ubu Editora, 2022), entre outras leituras determinantes. Essa obra é um soco no estômago de quem já compreendeu o quanto nossa sociedade foi tecida em cima de explorações e injustiças. E eu que há tantos anos me dedicava a cobrir temas ambientais com visões conservacionistas por olhos e óculos fabricados por brancos, me deparei com os lados perversos da nossa “civilização” aliada à destruição de culturas, mentes e, consequentemente, de ambientes. Não é por acaso que hoje os sistemas de vida do planeta dão sinais de que caminhamos para um ponto de não retorno.

Creio que precisamos todos de um letramento, de uma alfabetização sobre temas como o racismo e o contexto climático ambiental, para ficar só nesses (há outros), por enquanto, para enxergarmos ângulos distintos dos conceitos e narrativas que foram estruturados com as lentes do patriarcado da branquitude.

Escrevo isso na tentativa que chamar atenção dos brancos que me leem (talvez a maioria) de que precisamos urgentemente não só reconhecer a valor e a magnitude da influência africana, mas dos indígenas e de outros povos que até hoje seguem marginalizados. Hoje se fala e se toca em temas que no século passado não eram se quer citados. Tudo que emerge, depende da época. E já passou do tempo de mantermos “aquela velha opinião formada sobre tudo”, como sentenciou o eterno Raul Seixas.

Obrigada, apoiadoras e apoiadores

Neste último texto autoral de 2025, quero agradecer muito a você que me lê. Ao pessoal que contribui na Campanha do Apoia-se. A quem compartilha meus textos. Escrevo por vários motivos, mas neste ano, o retorno e a colaboração de vocês foram fundamentais para meu estado geral.

Até porque esse ano foi muito diferente dos demais em que lutei com unhas, dentes e perseverança para segurar as barras (minhas e dos outros). Pois, para quê mesmo que viemos a esse mundo? Acredito que se estamos nessa jornada e vivemos no contexto em que estamos mergulhados por algum motivo. E cada um que acredite do que quiser…

Adeus, 2025

O último texto de 2025 sintetiza minimamente o que passei nesse um quarto de século. Nem posso mais dizer que sou seminova com quilometragem rodada. Já vivi mais da metade da minha vida e estou naquela fase de perceber como tenho que estar aberta a aprender, a fazer o que pulsa dentro de mim. E, principalmente:  saber até onde meu corpo, minha alma e sensibilidade permitem ir.

Perdi a conta das vezes que não percebi a minha situação em relação ao contexto, acabei extravasando limites do corpo e da mente que deixaram marcas. Acho que isso é normal. E serve de aprendizado. O problema é que quanto mais demoramos para sacar isso, mais vamos sofrendo as consequências.

Esse ano que se vai, tem sido um divisor de águas na minha vida. Onde senti no coração, na pele, nas vísceras o que talvez tenha guardado, remoído, depois da Covid, “aquilo” que matou tanta gente, inclusive minha mãe; aquele clima hostil de certezas e polaridades que dizimou famílias; o maior desastre climático da nossa história e de ter voltado à universidade, me sentido ora um peixe fora d’água, ora numa piscina.

Já vai tarde 25! Foi um ano que sobrevivemos, mas que passamos por desafios, que acredito, não foram por acaso. Aqui em casa, o departamento médico foi várias vezes acionado. Também foi o ano que fortaleci vínculos de amizades com pessoas que conhecia, mas não muito de perto. Foi o ano que conclui que se quero viver com saúde, preciso pensar em vários lados da minha sustentabilidade. Não tenho me sentido mais tão bem morando numa cidade onde encontro mais gente com sacos de lixo preto catando os restos nos conteiners do que caminhando rumo a um destino amistoso. Mas, como todas as fases que já vivi, preciso me preparar (e meus afetos também) para a mudança.

Do planeta, não dá para fugir. O clima continuará nos dando respostas, consequências das ações dos que os que mandam e desmandam têm optado. Só nos resta aprender a conviver com as diferenças e semelhanças entre nós. Porque se agora podemos parecer diferentes, de peles e cabelos de cores diversas, depois que a velha chama apagar, todo mundo vai virar a mesma coisa. Um pó em processo de transformação para os outros que virão.

 

Todos os textos de Silvia Marcuzzo, aqui

Foto: Freepik

 

 

Texto originalmente publicado na SLER

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