Aprendizados em família

Para muitos, a melhor versão da família é aquele momento congelado exposto em um porta-retrato

Assim como grande parte das famílias, depois que minha mãe partiu, o convívio entre irmãos diminuiu. Tenho percebido que talvez hoje seja mais difícil juntar os integrantes de um clã do que poucas décadas atrás. Conseguir fazer uma reunião com a presença de várias gerações, então, é algo raro, por vários motivos.

Como vivenciei momentos de intensa emoção com a vinda da sobrinha Claudia, seu marido Rodrigo e a filha Clarissa, recentemente, coloco na roda algumas reflexões sobre alguns lados dessa convivência.

Até porque, mesmo com tanta tecnologia, de se poder falar, trocar mensagens etc., eu sinto uma certa dificuldade para conseguir me comunicar com os membros da família. Por incrível que pareça, era mais fácil, em muitos casos, falar com uma pessoa no tempo do telefone fixo. Sentir também o que era expresso em uma carta, que se lia e relia, era algo peculiar.

Hoje, pode-se mandar uma mensagem, um zap; a pessoa ou não vê, ou não responde ou esquece que tem alguém querendo contato devido à correria do dia a dia. Há uma série de impedimentos para se ligar e conseguir falar direto como fazíamos antigamente.

Paradoxalmente, gastamos muito mais tempo rolando dedos nas telas do que sabendo como estão aqueles que têm o mesmo sangue nas veias. Até porque a resposta para a pergunta corriqueira: como vai, na maior parte das vezes, é um tudo bem por escrito, bem diferente daquela em que sentíamos o timbre e a entonação da voz via orelhão ou telefone com ou sem fio.

Para muitos, a melhor versão da família é aquele momento congelado exposto em um porta-retrato (isso quando a foto existe). Também têm aqueles que preferem formar uma família com cães e/ou gatos.

Se alguns acreditam no mistério da composição da família, outros entendem que nada é por acaso. Estamos inseridos entre pessoas conforme o nosso Karma, dizem várias filosofias e religiões.

Como nasci nos minutos finais do segundo tempo, em uma época em que muitas mães sucumbiam na hora do parto, nasci em meio a inquietações. Sou a sexta de uma mãe que nem podia ter mais filhos. Estou convencida de que devo ter alguma missão em haver surgido numa família católica do interior do Rio Grande do Sul. Por que não nasci no Rio de Janeiro, perto da praia? Por que nasci no Brasil e não na China ou na Croácia?

Com o passar dos anos, especialmente quem já ultrapassou a maior parte da sua existência, eu, por exemplo, tenho mais de meio século de vida, pode perceber sutilezas, nuances que, quando se era mais jovem, não enxergava.

Até porque eu me sinto um tipo de representante da rabeira daqueles tempos de família grande, onde a igreja não era nada simpática ao uso de anticoncepcionais. Tempo de brincar até altas horas na rua, onde as casas tinham muros baixos e a neura da segurança não se criava. E, até mesmo por isso, cresci e convivi bastante com gente da mesma faixa etária, mais velhos, da geração baby boomers, aqueles nascidos entre 1945 e 1964. Sou da chamada geração X, que compreende quem nasceu entre 1965 e 1981.

Como convivo com familiares de distintos interesses e idades, me atrevo a escrever o quanto a qualidade das presenças e das ausências fala, ou até mesmo grita, em um encontro familiar. As crianças hoje têm voz e vez. Inclusive são decisivas no funcionamento de um núcleo familiar.

E nada como momentos olho no olho para se sentir a vitalidade e a energia do sangue novo na família. É maravilhoso ver as boas práticas quanto àquilo que vivi na casa de meus pais se perpetuando. Vi o dedo do meu pai, a concepção de saúde fomentada por ele ao me deparar com a minha sobrinha neta Betina devorando todo o prato consistente de salada verde e tomate. Se não tivéssemos crescido com horta, com meu pai descendente de agricultores cultivando hortaliças, frutas e tudo mais, dificilmente a Bêti seria estimulada pela mãe, a Natália, a comer salada com gosto.

Já a Claudinha seguiu a doçura e as boas maneiras de minha mãe: trouxe uma lembrancinha para cada uma das tias. Ou seja, senti meus pais vivos nas práticas que minhas sobrinhas estão transmitindo para as filhas.

Porém o jogo nesse baita tabuleiro da vida fica cada vez mais complexo, a cada fase do game da vida. As regras e o próprio tabuleiro mudam com frequência sem qualquer aviso prévio. E, cada vez mais, os contextos, os cenários se alteram de um jeito que precisamos saber o que fazer para surfar ondas de distintas marés. São fractais de um mundo em metamorfose.

Aquela concepção de que meus irmãos baby boomers foram educados entre tantas famílias numerosas ficou para trás. Se meus pais tiveram seis rebentos, duas irmãs tiveram três filhos cada, uma teve dois e eu tive um e meu irmão, nenhum. Entre minhas sobrinhas, só a Natália teve dois; o Vinícius, com a Janaína, teve outros dois. O tamanho das famílias de classe média hoje é o oposto do que protagonizavam os descendentes de italianos quando chegaram ao Brasil.

É preciso estar atento e forte, já cantava a Gal, para ficar por dentro do que rola entre outras gerações, em especial, os adolescentes. Todos os dias aprendo alguma novidade com meu filho de 19 anos. Ou seja, aquela velha ideia formada sobre tudo, que o Raul Seixas preconizava e que não se podia debater com os pais hoje é questionada e argumentada pelas novas gerações.

E há elementos que escancaram os motivos dessa sociedade contemporânea estar como está. Hoje estamos enredados em contextos midiáticos e tecnológicos em plena época de severas mudanças climáticas. Para algumas áreas do conhecimento, vivemos a era chamada de Antropoceno – devido à significativa interferência dos seres humanos nos mecanismos de funcionamento dos sistemas terrestres; estamos atravessando um processo civilizatório jamais vivido, influenciado pela tecnologia e pela midiatização.

Ninguém da minha família (desconfio que nenhuma outra da sociedade industrial) hoje vive mais sem a tecnologia na palma da mão, nem sem os produtos derivados de petróleo, responsáveis pela intensificação do aquecimento global. E tudo isso compõe um horizonte de incertezas. Só as transformações dos últimos 30 anos já escancaram o quanto precisamos estar ligados, que, antes do conforto e da aparência, a convivência em família é resultado de uma construção árdua e delicada.

E tudo depende do quanto estamos dispostos a nos perceber no meio desse emaranhado. Processos de autoconhecimento são vitais para que consigamos viver com paz no coração e realizações em família. Tenho certeza de que meus pais fizeram o melhor, dentro das suas concepções, para que hoje eu possa estar aqui, escrevendo esse texto, deixando algo no ar, para que estejamos alertas às maravilhas de se acordar todos os dias e ter algo a fazer, por nós e pelo mundo.

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Foto da Capa: Freepik

Texto originalmente publicado na SLER

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