Comunicação de risco e eleições

Pouca gente se interessa em investigar, querer entender de comunicação de risco em tempos de Desastroceno

risco
Foto: Reprodução do Instagram

Estávamos em camas de solteiro, uma ao lado da outra. Dormíamos ferradas. De repente, ela pulou para minha cama, disputando uma posição no colchão. Não demorou muito, ela começou a dizer o que precisava ajustar no texto, o que tinha que mudar. Me bateu um desespero, pois, naquele momento, não tinha como anotar, registrar o que ela estava me dizendo.

O que conto acima foi o sonho que tive com a minha orientadora na noite posterior à banca. Na terça, dia 29, foi a apresentação da minha pesquisa de Mestrado. Confesso que acordei aliviada, pois tudo não passava de um sonho. Estou decantando o significado de encerrar essa etapa.

Se para quem está com os neurônios e hormônios a mil, mas em dia, já é difícil fazer uma dissertação, imagina quem resolveu voltar para a academia depois de mais de 30 anos de formada e em plena menopausa. Além disso, desde o final de julho do ano passado, estou driblando intercorrências de saúde, fora outras adversidades.

Coisas da vida humana. Coisas de “white people problem”, uns poderão dizer. O fato é que o próprio tema da minha pesquisa foi e é um peso. Pouca gente se interessa em investigar, querer entender de comunicação de risco em tempos de Desastroceno (denominação que a Norma Valencio dá ao que muitos chamam de Antropoceno).

Desde que me descobri jornalista, avalio um assunto, uma pauta, sob a ótica da importância para a coletividade. Infelizmente, cada vez mais, o que rola na mídia, o que sai da boca de influenciadores, tem relação com dinheiro, ou então com interesses de alguns.

Na pesquisa, analisei vários lados do mundo contemporâneo e da comunicação de risco no desastre de maio de 2024 em Porto Alegre. E cheguei a algumas considerações “provisórias” (sim, pode mudar) sobre como deve ser uma comunicação que realmente se preocupe com as comunidades atingidas.

Nada fácil, precisa de energia. Principalmente vontade política. Recursos vivos e de grana. Será que os tomadores de decisão querem que lideranças comunitárias, formadores de opinião, participem de processos para construção de estratégias de comunicação para salvar vidas e memórias?

Pois eu cogito isso. Proponho a formulação de estratégias para uma Comunicação Pública de Risco Lugarizada. Já que estamos cada vez com maior número de eventos extremos que impulsionam a ocorrência de desastres. Esses episódios, tipo os que têm acontecido com mais frequência no Rio Grande do Sul, leia-se granizo, ciclones, inundações, tornados etc., não podem ser interpretados simplesmente como fenômenos naturais. Para muitos pesquisadores e estudiosos do assunto, isso que as Defesas Civis fazem de se articularem apenas em casos de resposta à emergência é algo mais que ultrapassado. Os impactos produzidos são atravessados por condições sociais, históricas, ambientais, territoriais, políticas, econômicas e institucionais. Por lei, a Defesa Civil precisa trabalhar com planejamento, prevenção, preparação e também com resposta.

Em resumo, busquei compreender o contexto no qual o desastre ocorreu na Capital, analisar as manifestações comunicacionais da Defesa Civil Municipal publicadas no site oficial da Prefeitura e examinar, sob a perspectiva da comunicação de risco, as recomendações apresentadas pelo Programa do Governo Holandês de Redução de Risco de Desastres e Suporte a Surtos (DRRS), contratado pelo município.

A pesquisa parte da distinção entre informação e comunicação, conforme preconiza Wolton, um autor-chave para minhas descobertas. Considera que a simples transmissão de dados não garante que a mensagem seja compreendida ou transformada em ação. Ou seja, Comunicação é Ciência, deve perpassar por todas as fases antes, durante e depois do desastre. Não é só atender à imprensa e produzir releases.

A comunicação de risco envolve muita coisa. Não apenas a produção e disseminação de mensagens, postagens em redes sociais, sites, mas também as condições de recepção, interpretação, percepção, diálogo, participação e capacidade de resposta dos sujeitos expostos.

A contextualização de Porto Alegre evidencia que a vulnerabilidade diante das inundações está relacionada às características ambientais e hidrográficas da cidade, à ocupação urbana, às condições de infraestrutura e à memória de eventos anteriores.

A inundação de 2024 revelou a interdependência entre diferentes territórios, especialmente pela contribuição dos rios que integram a Bacia Hidrográfica do Guaíba. O relatório do governo holandês também identificou uma combinação excepcional de fatores meteorológicos e hidrológicos, associada às chuvas intensas, aos ventos, às condições de escoamento e ao nível das águas. Nesse contexto, a experiência de risco não se restringe ao espaço físico onde ocorre a ameaça, mas envolve relações, experiências, memórias, percepções e modos de vida.

É nessa discussão que a noção de lugar antropológico de Marc Augé contribui para a construção do conceito de Comunicação Pública de Risco Lugarizada. A pesquisa estabelece uma distinção entre territorialização e lugarização. Territorializar o risco significa reconhecer onde ele se manifesta e considerar as condições específicas dos territórios, como bairros, áreas vulneráveis, cursos d’água, infraestrutura e condições ambientais e sociais.

Lugarizar a comunicação implica avançar em direção à maneira como o risco é vivido, percebido, interpretado e enfrentado pelos sujeitos. O lugar, portanto, não é compreendido apenas como localização, mas como espaço constituído por relações, identidades, memórias, experiências e modos de vida.

Para encerrar, já que estamos em véspera de eleição, para muitos a mais importante da História, provoco: que tal lugarizar o seu voto? Vamos investir em candidatos que se preocupam com o bem-viver onde você mora? Vamos escolher quem está preocupado com a qualidade de vida dessa e das futuras gerações? Vamos optar por candidatos que respeitem o ambiente e invistam na prevenção de desastres? Bora?

Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI.
Participe da campanha Outros Lados do Contexto e colabore com o financiamento coletivo para que eu possa continuar escrevendo no Sler. Agradeço demais o apoio, principalmente de mulheres que vêm me apoiando de distintas formas, seja lendo, compartilhando ou fazendo doação em dinheiro todos os meses. Clique no link abaixo:

 

Texto originalmente publicado na SLER

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima