Minhas unhas e os gases de efeito estufa

Nossa civilização está adotando tendências do momento que estão acelerando nosso rumo ao precipício

Consultei um dermatologista diferente dos que já conheci. Ele me sentenciou algo que saí intrigada: comentou sobre três coisas que as mulheres deveriam evitar e que vão totalmente contra o que dita a moda. Primeiro, que é antinatural usar salto alto. Traz problemas para a coluna, para os pés, para outras partes do corpo, que nem imaginamos. Eu, como não uso salto com frequência, raramente em festas, concordei na hora.

Outra prática comum, ditada pela moda, é o uso de chapinha para alisar cabelo. Ele explicou que o calor intenso traz problemas para o bulbo capilar, o que prejudica a saúde do cabelo. Eu acho muito inconveniente ficar parada e adotar esse método de arrumar o cabelo. Aliás, uma amiga me indicou um salão completamente diferente, em que a cabeleireira faz o corte conforme a urgência desses tempos: sair do banho, aplicar algum creme e secar ao natural. Esse profissional usa cosméticos em barra e também não recomenda o uso de produtos químicos agressivos para alterar a cor natural das madeixas.

Essas duas observações, confesso, não me abalaram porque não fazem parte da minha rotina. Porém, a última me deixou chateada: ele assegura que não deveríamos frequentar manicures. Ou seja, não deveriam retirar a cutícula, muito menos pintar as unhas. Bah, daí fiquei incomodada.

Segundo esse médico, o maior entrave nesse serviço tão popular, oferecido por toda parte, especialmente na nossa cultura da vaidade, é o estrago do removedor de esmalte. Ele afirma que as substâncias que contém na acetona ou no chamado óleo de bananeira (desconfio que não tenha qualquer coisa da bendita fruta, só o nome mesmo) têm impacto nas unhas, porque, ao tirar a pintura, retiram também a camada superficial da unha.

Ou seja, se séculos atrás a moda era usar espartilho, saia comprida, entre outros incômodos, até hoje continuamos utilizando mecanismos para ficarmos conforme a nossa cultura determina. E isso é com relação a qualquer coisa. E o impacto de febres do momento – já peguei várias ao longo da minha vida – deixa rastros de destruição ou não, tanto na saúde das pessoas como no ambiente.

Tive um cabeleireiro muito querido que acabou partindo cedo para outra dimensão porque teve um câncer no fígado. Ele era expert, baita profissional das luzes, da coloração, entre outras químicas. Quando estamos na vibe de ficar bonita, geralmente para os outros ou por problemas de autoestima, nem cogitamos que algum procedimento pode trazer problemas futuramente. Confesso que, no século passado, até fiz umas sessões de bronzeamento artificial. E hoje eu fico ho-ro-ri-za-da com tantas moças colocando implantes de silicone e outros tipos de plásticas para manter uma aparência que, muitas vezes, fica pior que o natural.

Estou trazendo esse assunto, não só porque estou sendo obrigada por questões de saúde a deixar de lado várias coisas que gosto, mas porque essa situação conecta ao estado da nossa situação enquanto espécie.

Parto desse meu exemplo, porque, assim como não posso seguir frequentando a manicure, nossa civilização está adotando tendências do momento que estão acelerando nosso rumo ao precipício. E não tem conferência de nações, nem COP, nem governos que deem conta de minimizar os estragos.

Quando a tendência traz prejuízos sistêmicos

E se tudo na vida é uma questão de gradiente, do preto ao branco, com outras cores incluídas, não estamos acertando no equilíbrio das tintas da paleta quando o assunto é consumo (aliás, onde estamos acertando?). Depois que tivemos acesso ao mundo e aos recantos do submundo na palma das nossas mãos, o contexto para seguirmos fazendo o que não deveríamos fazer, conforme o que preconizam os cientistas, os entendidos na saúde pública e planetária, está mais complicado do que nunca.

Já pensaram no papel da China, essa potência de milênios no contexto mundial? País está reduzindo suas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs). A China é um dos países que mais está se empenhando em instalar tecnologias para geração de energia menos poluentes, pois lá o uso do carvão é ainda muito utilizado. A produção de painéis solares aumentou absurdamente. O país exporta equipamentos de geração de energia solar para todo o mundo. Só que, ao mesmo tempo, também está exportando todo tipo de produto, inclusive com poluentes, com preços imbatíveis que estão destruindo economias locais. Só para lembrar, China e Estados Unidos são os maiores emissores de GEEs do planeta.

E aí, quando nós compramos algo (geralmente que não precisamos de verdade) no AliExpress, pela Temu ou pela Shopee, nos damos conta disso? Em Porto Alegre ou qualquer outra cidade grande, é chocante ver o número de imóveis que antes eram lojas, serviços, de portas fechadas com a placa “vende-se” ou “aluga-se”. No Centro da Capital, então, é algo que denota muitos significados, ainda mais para quem, como eu, morou e frequentou tanto aquela região da cidade.

E por que isso está acontecendo? Creio que há uma série de fatores. Mas, com certeza, algo que vem contribuindo muito para esse cenário é a forma como a circulação de dinheiro vem sendo feita. As contas por aqui não andam fechando.

Tudo é uma questão de cultura, de hábito. Assim como devemos repensar o quanto práticas para ficar mais bonita podem trazer problemas de saúde a médio e longo prazo (tanto para quem faz, como para quem recebe), da mesma forma, nosso modo de consumir também gera impactos negativos de uma forma sistêmica, pois está tudo interligado.

Quem será que paga a diferença do preço de uma lava roupa de R$ 59 pela internet? Ou de uma bicicleta ergonômica por R$39,90 (duas propagandas com esses preços apareceram esses dias para mim)? Os preços de produtos chineses são incomparáveis aos nossos. E alguém pensa que a qualidade do que foi comprado significa que logo vai virar resíduo ou rejeito? Em seguida, o que vem do outro lado do planeta passará a ser um problema coletivo, que todo mundo vai pagar. E ainda trará prejuízos incalculáveis para o funcionamento das cidades, que cada vez mais gastam para fazer um gerenciamento e uma destinação final dos resíduos. Será que vale a pena alimentarmos esse sistema em que boa parte do lucro fica com as big techs que ganham com os anúncios? Onde será que isso vai dar?

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Foto da Capa: Freepik 

Texto originalmente publicado na SLER

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