O documentário 100 Anos The New Yorker me provocou uma sensação mesclada de tantos elementos que vou tentar transmitir agora
100 Anos The New Yorker (Netflix), um documentário lançado em dezembro de 2025, que nos faz pensar em tantas coisas, principalmente no processo de elaboração de pautas, na qualidade do jornalismo. Gostei bastante do conteúdo, confesso que nunca peguei em minhas mãos essa famosa revista norte-americana. Mas o que os minutos do filme provocaram foi uma sensação mesclada de tantos elementos que vou tentar transmitir para vocês.
Inclusive consultei o amigo e professor de Jornalismo Roberto Villar Belmonte sobre o filme, pois, assim que vi, logo quis dividir com outros colegas que são professores o quanto vale a pena ver esse documentário.
O rigor na apuração, as reportagens investigativas, o processo de construção de uma revista semanal, o estilo e a gestão de um time de pessoas que se dedicam para que tudo saia de forma correta me despertaram um pouco de desatino, inconformismo e, de certa forma, uma nostalgia do tempo em que se preparava melhor a forma de trabalhar os textos, a arte, as apresentações.
Foram entrevistadas fontes de várias idades e de cores diversas, denotando o quanto a experiência de quem acompanha assuntos há muito tempo. O crítico de cinema contou que assiste a um filme por dia há 40 anos. O cara que cuida da manutenção e dos arquivos com originais dedica-se a essa e outras tarefas há mais de 30 anos. Isto me deu um nó no coração, pois trabalhei outrora com várias pessoas assim. Hoje desconheço algum lugar que trabalhe com jornalismo que mantenha as pratas da casa com o valor que essas pessoas merecem.
O filme rende aulas de jornalismo, não só porque mostra como é o envolvimento de profissionais que zelam pelo que o grupo produz. Há uma equipe de 27 profissionais que checam tudo que os repórteres levantaram. O veículo marcou a história não só do jornalismo, mas do próprio ambientalismo.
O documentário aborda o trabalho hercúleo de Rachel Carson, que pesquisou por quatro anos o efeito do DDT nas plantações e rendeu uma série especial de reportagens que interferiram no jeito de lidar com pesticidas. O resultado foi o emblemático livro Primavera Silenciosa, um marco, um divisor de águas, decisivo para o surgimento do movimento ambientalista. O filme evidencia o quanto foi pesado para a autora acompanhar o impacto das reportagens. Depois de dois anos do conteúdo publicado, ela acabou falecendo em decorrência do câncer.
Além de mostrar outros lados da história – depois da Segunda Grande Guerra eram divulgadas informações a favor dos Estados Unidos –, a revista mandou um repórter cobrir a situação do Japão, depois de alguns anos do lançamento das bombas atômicas. O professor Roberto considera Hiroshima a primeira grande reportagem de jornalismo ambiental “justamente pelo modo como ele traz essa noção de risco a partir dos depoimentos pessoais daqueles seis sobreviventes”. Ele explica que aquele trabalho é o que até hoje se ensina para os aspirantes a jornalista, que é escrever a partir do ponto de vista de quem sofre o problema.
Para Roberto, esse registro dos 100 anos da New Yorker, passando por todos os seus editores, mas com a centralidade do atual David Remnick, um cara que foi repórter e tem vários livros publicados (confira aqui) é super-relevante. Até porque foi essa revista que serviu de inspiração para a piauí, um veículo que publica grandes textos, usa e abusa de cartuns. “A piauí é a nossa New Yorker, o próprio criador da revista reconhece isso. Ela é uma exceção no jornalismo brasileiro, mas vem inspirando alunos que são sensíveis ao bom texto, que investem e que se sensibilizam com o jornalismo”. Ele pretende trabalhar com o documentário em sala de aula. Pois escancara os bastidores, apresenta depoimentos importantes do making-of do livro Hiroshima e também do A Sangue Frio, que são dois grandes clássicos, na sua opinião.
Confesso que terminei o filme muito incomodada porque na cidade onde moro, ou melhor, no estado onde nasci e habito, não temos mais veículos que bancam a ida de um correspondente internacional com competência e independência para tratar de temas complexos com isenção. Sempre o jornalismo foi um negócio, mas hoje, a credibilidade e a qualidade, assim como o respeito ao leitor, são algo que deixou de ser relevante.
Lembrei dos meus tempos em que o maior jornal da cidade tinha um departamento de pesquisa. Trabalhei com pesquisa quando fui estagiária da TVE e da FM Cultura. Naquela época, a coleta de dados recentes era feita diariamente com recortes das páginas dos jornais e revistas que eram colados em folhas ofício. Na FM Cultura, aprendi muito com o memorável bibliotecário Marcelo del Fabro, que era responsável pelo arquivo e pela pesquisa. Naquele tempo analógico, se preocupava muito com o embasamento do que ia ser produzido.
No Correio do Povo, também havia um arquivo precioso e os textos dos repórteres passavam pelo chefe de reportagem, pelo editor e por revisoras e revisores. Ou seja, se hoje se tem mais rapidez na publicação de notícias, por outro, há pouco empenho na produção do que é veiculado. Por vários motivos, entre eles, o enxugamento das redações e a necessidade de produção cada vez mais rápida, as notícias são dadas de forma rasa, superficial. Além disso, estamos mergulhados em uma infodemia que mais atrapalha o processo de discernimento, pois nem os veículos profissionais, muito menos influencers e afins, trazem clareza e contextualização do assunto que está sendo abordado; fica difícil detectar o que é realmente importante do que é completamente supérfluo. Isso, sem falar no tribunal da internet.
Roberto também tem sua opinião com relação a esse contexto. Ele acredita que o jornalismo regional, o nosso jornalismo local, está passando por uma fase de transição. Para ele, estamos atravessando “uma tentativa de entender qual é o ponto de equilíbrio entre influência digital, entretenimento e jornalismo e conteúdo de marca”. Na sua avaliação, esses quatro elementos estão se misturando. Aquilo que já se chamou de “infotenimento” é uma tentativa de deixar mais agradáveis os temas de interesse público. “Isso não é fácil de fazer, é muito difícil fazer, ainda mais numa redação enxuta, que precisa incorporar também a inteligência artificial, em que as pessoas estão tateando”, observa o professor da UniRitter. Ele acrescenta, ainda, que quem está hoje nas redações está experimentando o que pode ser feito, mas de forma alguma seria o fim do jornalismo. “É uma nova transição que a profissão de jornalista está passando”, sentencia.
Roberto pode estar coberto de razão. Porém, independentemente do que está acontecendo, confesso que fiquei muito impactada pelo filme. Saí cheia de indagações, me sentindo uma insignificante pecinha de uma engrenagem de um sistema colonizado e que hoje – mais do que nunca – quer mesmo é que as pessoas nem se preocupem com os erros e os absurdos que são divulgados.
Quem hoje envia uma “carta” ou uma mensagem para um veículo reivindicando alguma reparação? Qual foi a última vez que uma reportagem mostrou casos de corrupção, escândalos que realmente abalaram estruturas de poder (ainda mais depois de um desastre de proporções únicas que vivemos em 2024)? Será que alguém reclamou, esbravejou quando foi exterminado o caderno de reportagens especiais do maior jornal da cidade? Com a palavra, o tempo… o senhor da razão (até hoje me lembro de que o Collor usava camisetas com dizeres desse tipo, e esse ficou marcado na minha memória).
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