Tenho procurado valorizar ainda mais as amizades, os encontros, a observação da natureza, entre outras coisas boas da vida
Nos últimos tempos, devido a conjunturas do contexto, tenho procurado valorizar ainda mais as amizades, os encontros, a observação da natureza, entre outras coisas boas da vida. E, entre esses momentos, talvez um dos mais encantadores foi ter presenciado o espetáculo Palavra Bailada, da escola de flamenco da Sílvia Canarim.
Acompanho o trabalho, a evolução da minha xará, desde o tempo em que ela começou a dançar flamenco. Fomos colegas de faculdade, lá no final dos anos 80. Fiz a assessoria de imprensa da primeira apresentação dela, com release batido à máquina de escrever e divulgação espalhada nas redações em cópias xerox. Silvia tem dedicado sua vida a essa atividade. Fomos colegas na Faculdade de Comunicação, na Famecos/PUCRS, mas foi na dança que ela se encontrou. Silvia é mestre em Artes Cênicas pelo PPGAC da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, especialista em Dança pela PUC/RS e diplomada em “Estudios Avanzados en Flamenco” pela Universidade de Sevilha. E está à frente da Companhia Silvia Canarim – Flamenco e Contemporaneidade.
Já assisti a diversos espetáculos dela e de suas alunas ao longo de sua trajetória. Não sou entendida em dança, muito menos em flamenco. Mas, dessa vez, saí emocionada.
Suas 17 alunas, de idades entre 28 e 60 anos, esbanjaram segurança e precisão no dia 17 de janeiro, no Centro Cultural Espanhol de Porto Alegre. Aliás, que lugar incrível para se fazer uma apresentação (um desperdício não ser mais aproveitado!).
Profissionais como psicóloga, enfermeira, professora, médica, advogada, jornalista, entre outras, deram um show de empoderamento e de capacidade de produção para concretização do espetáculo. Entregaram o seu melhor, desdobrando-se em distintas coreografias para uma plateia em formato de arena. Afinal, o trabalho, construído com dezenas de horas de ensaio, é de uma escola para amadores e amadoras. Mas a expressão, a vitalidade e o desempenho demonstravam que elas não estavam ali para brincadeira.
Entre saias, vestidos, babados, acessórios com muito strass e diferentes tipos de sapato, elas se mostraram seguras, donas de si, atuantes e responsáveis pela produção do ritmo, com seus quadris e pisadas decisivas para acompanhar o andamento da música, ora pulsante, ora introspectiva.
O figurino foi um diferencial desta edição. Foram 10! Um para cada coreografia. A cada música, um grupo bailava conforme a vestimenta e os recursos que dispunham. Brincos e passadores eram trocados a cada número. Xale, castanhola, leques e flores da cabeça remetiam às rodas de flamenco da Andaluzia. Outro aspecto interessante é que o espetáculo não foi só de dança, mas de música, com declamação de poemas e de trechos de livros de consagrados escritores que valorizaram a cultura flamenca, como o brasileiro João Cabral de Melo Neto e o espanhol Federico Garcia Lorca, um dos ícones da Andaluzia.
Raízes do flamenco
A própria história do ritmo também foi abordada para deixar claro o comprometimento do grupo com as raízes flamencas, que incorporaram gestos e objetos por influências de etnias e culturas ao longo do tempo. O flamenco nasceu na metade do século XIX como uma reinterpretação artística da tradição musical, literária e coreográfica da Espanha. Em resumo, carrega em seu DNA toda a herança cultural deixada pelos povos que habitaram a Península Ibérica, como árabes, ciganos, judeus e cristãos. Atualmente também se estudam as heranças africanas e latino-americanas, devido ao intercâmbio cultural com as colônias espanholas.
Jogo de cintura
A função toda foi viabilizada com muito esforço, pois os valores dos ingressos não cobrem todos os custos da produção. Já é uma tradição entre as adeptas desse tipo de dança frequentar o brechó promovido pelas alunas da Silvia. Todos os anos, pelo menos duas vezes, são realizadas e comercializadas peças de roupa, acessórios, sapatos, entre outros itens de excelente qualidade, doados por amigas e integrantes da comunidade flamenca para a ocasião.
Ou seja, o jogo de cintura para fazer acontecer é dentro e fora do tablado. Por tudo isso, elas merecem nossa consideração e aplauso. Para ter mais uma apresentação, o Palavra Bailada vai concorrer por recursos em editais públicos para ser exibido mais uma vez.
Enquanto o mundo passa por situações inimagináveis, com poderosos invadindo ou se apropriando de outros países, é imperativo aliviarmos as preocupações com os rumos da dita “civilização”. Precisamos encontrar desopilantes. Sermos felizes. Fazermos o que está ao nosso alcance para driblar pensamentos decorrentes de notícias em que o fim do túnel se encontra distante. E assistir ao espetáculo de flamenco foi um bálsamo para esses tempos difíceis.
Para sentir mais:
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Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI. Foto da Capa: Acervo da Autora Texto originalmente publicado na SLER




