Quando conheci o mar

Já nas primeiras horas da manhã, dava para sentir a temperatura, que cedo nos expulsava para fora da barraca

Nesse momento em que estou sendo obrigada a parar, a não viajar, acessei aquela vontade insana que sentia quando conhecia apenas Cachoeira do Sul, minha cidade natal. Voltei a lembrar das vezes em que senti aquela comichão por desbravar o mundo, conhecer outras realidades. E aí me veio a situação de quando era criança e adolescente.

Meus pais tinham o hábito de não sair de casa. Iam no máximo visitar parentes, meu pai adorava ir para Vale Vêneto e minha mãe, a Porto Alegre. Mas só em datas especiais e se tinham algum compromisso ou comemoração. E olhe lá.

Eu, como moradora de uma cidade do interior, convivi com vizinhos, colegas e amigas que sumiam no período de férias. Tenho na memória festas de aniversário com poucos convidados. Como aniversariante de fevereiro, sempre foi difícil reunir gente para confraternizar.

Era inconformada por não viajar nas férias, isso depois de deixarmos de frequentar o Capão Grande, o então balneário do Rio Jacuí. Até que, aos nove anos, tive a oportunidade de conhecer o litoral gaúcho, mais precisamente Capão da Canoa. Tudo porque fui de “chá de pera”, também conhecida como “vela”, da minha irmã Clarice e do então namorado, hoje marido dela.

O trajeto já foi uma aventura, fomos de Kombi, entre um monte de coisas, entre colchão, apetrechos para acampar e com o sobrinho do meu cunhado Dico tirando sarro da minha cara: “Te cuida com os jacarés”. Depois de um tempo, me dei conta de que esse réptil não é adepto de água salgada. Naquele tempo, nem se imaginava o que era o tal bullying. Cresci entre irmãos mais velhos e amigos deles praticando esse tipo de coisa, que só fui saber do nome depois de adulta.

Nossa barraca foi montada no pátio de um depósito de uma empresa que distribuía picolés e sorvetes, daquelas antigas do exército, de lona verde escura. Nos primeiros dias, dormi no meio do casal. Depois, acabei indo para um canto. Já nas primeiras horas da manhã, dava para sentir a temperatura, que cedo nos expulsava para fora da barraca. No estilo mais roots impossível – a primeira vez que acampei na vida foi inesquecível. E, para completar a “indiada”, meu cunhado tinha uma moto CG125 cilindradas que nós andávamos em três. Tudo isso no tempo em que não se exigia capacete e praticamente não existia fiscalização de trânsito.

Ao chegar na beira da praia, depois de mais ou menos 10 quadras caminhando, fiquei impressionada. Admirada do nosso litoral ter ondas marrons, diferente das praias que tinha visto na televisão, onde a água era azul ou verde. Na beira-mar, conheci mariscos, tinha uma abundância naquele tempo desse tipo de molusco, muitas tatuíras e conchinhas de cores e tamanhos diversos. Lembro que muita gente catava esses bichinhos. Tinha um restaurante chinês numa galeria no centro de Capão que fazia pratos com mariscos.

Era verão de 1979. Capão ainda fazia parte do município de Osório. Um dos atrativos da praia era um prédio grande de madeira verde, que chamavam de boliche, com jogos e brinquedos diversos que eram acessados com fichas, tipo de orelhão. Meus olhos brilharam ao me deparar com tanta coisa legal num só lugar. Naquela época, nem fliperama tinha em Cachoeira.

Lembrei de tudo isso porque hoje estou longe do mar. Vivi inúmeras aventuras que seriam impossíveis de se cogitar fazer hoje para estar perto de praias, principalmente de Santa Catarina. Perdi a conta de quantas vezes peguei carona sozinha e fiquei em casas e acampamentos com conhecidos para desfrutar de períodos de folga junto ao mar no Carnaval. Uma vez, fui de ônibus sozinha. Quando acordei, tinha passado do local onde ia descer para ir para Porto Belo. Para voltar, foi um trabalhão, consegui ir até Tijucas, e de lá, até Porto Belo e depois para Bombas, meu destino final. Outra vez, uma amiga e eu pegamos carona com uma repórter do Guia Quatro Rodas para ir até Quatro Ilhas.

O que a gente não fazia para fugir do calor, do marasmo de uma cidade escaldante nos tempos de juventude?  Na época da faculdade, fui com um casal de amigos para um camping em Ibiraquera. Choveu os quatro dias do feriadão… Naquela vez, teve uma noite em que precisei ir ao banheiro. No caminho, com sono, caí num buraco, me sujei e depois me perdi para voltar à barraca. Mas o pior mesmo era ter que dormir e ouvir o barulho dos amassos etc. do casal. Para pregar o olho, ensacava os pés, a barriga e a traseira para evitar que a água entrasse nessas partes do corpo. Enfim, naquele século passado, o negócio era encarar o que era possível fazer com o que o contexto permitia. Tudo acabava em experiência e diversão pela sede de viajar, conhecer outros lugares.

Histórias de viagem sozinha e acompanhada tenho aos montes, mas essa da minha primeira ida ao nosso litoral foi marcante por vários motivos. Até porque, no caminho de volta para casa, da então rodoviária de Capão de moto, meu pé direito num chinelo de trancinhas de couro – moda na época – encostou nos raios do aro da roda em movimento. Cortou feio, saiu sangue, mas tive que aguentar firme a volta à Cachoeira machucada. Até porque, se eu quisesse ter chance de viajar de novo, minha irmã não poderia se sentir incomodada e ela não dava mole. Vai ver que é por essas e por outras que já me dispus a passar por tantas situações inusitadas só para poder desfrutar do lado bom de pegar a estrada.

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Foto da Capa: Freepik

Texto originalmente publicado na SLER

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