Nos últimos dias, revivi momentos, reacendi memórias assistindo ao documentário sobre esse local que entrou para história da Capital gaúcha
Nessa atual fase da civilização, onde quase tudo está em metamorfose, perdi as contas de tantos lugares que marcaram minha vida que viraram estacionamento ou farmácia. Em Porto Alegre, a escola onde aprendi a nadar, a piscina foi tapada e está cheia de carros em cima. A mesma coisa aconteceu com o antológico espaço que frequentei nas décadas de 80 e 90, o Porto de Elis. Toda vez que passo na frente ao local, na avenida Protásio Alves, me dá um aperto no coração.
Nos últimos dias, revivi momentos, reacendi memórias assistindo ao documentário sobre esse local que entrou para história da Capital gaúcha. Também assisti ao filme Homem com H, sobre a trajetória de Ney Matogrosso, mega artista, um marco da música brasileira que também retrata um pouco da mesma época do Porto de Elis. Aquele tempo de expansão da AIDS não foi nada fácil. Perdi as contas de tantos artistas e conhecidos que se foram por causa daquele maldito vírus.
O documentário sobre Porto de Elis, pode ser conferido no YouTube, clicando aqui.
Mas sem querer dar spoiler sobre o filme, que tem produção da Flavia Gazola, roteiro de Renato Del Campão e desenho de som de Ricardo Severo, vou contar um pouco do quanto esse conteúdo levantou poeiras dentro de mim.
O Porto de Elis funcionou por 10 anos, de 1984 a 1994. Foi disruptivo, inovador e um marco cultural e comportamental da cidade, do Rio Grande do Sul, por vários motivos. Primeiro, começou na Capital, depois teve uma filial em Caxias do Sul. E a Flavia, por se dividir entre Caxias e Porto Alegre, propôs um projeto pela Lei Paulo Gustavo, por meio de um edital da prefeitura de Caxias.

Como tinha guardado quilos de fitas VHS com registros dos primórdios do Porto, aproveitou o material e fez novas entrevistas com muita gente que viveu aquele período efervescente. O Porto de Elis foi pioneiro na instalação do primeiro circuito interno de TV em bar, onde a Flavia Gazola rodava suas produções. Também foi lá que a fotógrafa Fernanda Chemale fez sua primeira exposição da atuação de bandas de rock gaúcho.
Em 1989, primeiro ano que estava na Capital, com meus 47 quilos, descobrindo as novidades, recém saída de Cachoeira, trabalhei na produção de um programa na finada TV Guaíba. Lembro de receber os releases mimeografados do Porto de Elis, com intensa programação.
Depois, quando já era estagiária na FM Cultura e depois na TVE, os informes à imprensa eram feitos de xerox. Nas redações, os jornalistas esmerilhavam máquinas de escrever. Geravam um barulhão em meio a uma nuvem de fumaça de tanto cigarro.
Perdi as contas das vezes que fui no Porto de Elis pra dançar, ver shows e performances. Eu me acabava dançando na pista ao som de música eletrônica como Depeche Mode, Erasure, INSX e muito rock gaúcho com os amigos que não moram mais por aqui. Voltava pra casa com o cabelo e a roupa cheirando a cigarro.
Uma das vezes, assisti a banda do amigo e conterrâneo Adão Iturrusgarai tocando Gato em cima do telhado de zinco quente. Na verdade, era só uma gozação, pois a guitarra miava… Acho que foi na época que ele lançou a revista DumDum, em 1990, que fez muito sucesso, gerou polêmicas e fez história. Pura irreverência, a cara do Adão.
Essa e outras coisas que rolavam no Porto de Elis denotam o quanto o espaço servia para experimentação de vários estilos e tribos em um momento em que a juventude inquieta vivia na rua. O projeto Segunda Sem Lei, uma iniciativa dos músicos Egisto Dal Santo e Claudio Calcanhoto (irmão da Adriana, outra que dá depoimentos no doc) promovia a apresentação de bandas novatas, além de outras manifestações artísticas. Tinha público para todos os dias da semana!
Naquele tempo de convivência raiz, a única forma de se falar era por orelhão ou telefone. Época de punks, darks, new waves, surfistas, gente de todas as tribos transitavam por lá. Aliás uma das coisas legais é que o filme mostra outros ambientes que ajudavam a fermentar a programação do Porto de Elis, como o Scalp e a Ipanema FM. A rádio divulgava o que de mais disruptivo existia na cidade. A Kátia Suman conta no documentário. Pois até teatro infantil no domingo à tarde entrou em cartaz por lá.
Uma vez, o coral da AABB foi cantar no Show Chuá, uma das atrações fixas do Porto. Acho que foi lá por 91 ou 92. Eu estava entre as sopranos que se apresentaram. Nós desafinamos, nos perdemos, baixamos o tom, mas o maestro Tiago Flores, não parou. Seguimos. Todo mundo caiu na gargalhada. Nem lembro se conseguimos ajustar os acordes para encerrar a música Beijo na Boca do Itamar Assumpção.
Experimentar, errar, fazer de novo, fazia parte do show e do espírito do Porto de Elis. Também não se tinha medo de caminhar de madrugada pelas ruas. O circuito Osvaldo e Protásio era agitado, circulava muita gente. Na Osvaldo Aranha, os bares Ocidente, Escaler (mais no domingo de tarde e de noite), João e Lola bombavam de até altas horas. Muitos programas que marcaram gerações não só daqui, como de fora do Estado. Tanto é que uma amiga que mora em Campo Grande, quando esteve aqui pela primeira vez, no ano passado, queria conhecer a Osvaldo Aranha e o Parque Farroupilha por causa da música Amigo Punk, da Graforréia Xilarmônica.
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