Canto mágico

Há semanas estamos ensaiando em um coro de mais de 150 vozes para cantar espalhados pelas janelas, sacadas e passagens da Casa de Cultura

Nesses tempos bicudos, digo, espinhosos, com insanidades difíceis de acreditar que estamos vivendo em pleno século XXI, precisamos encontrar formas de sobreviver, de desopilar em momentos em que podemos respirar mais aliviados. Se para muitos, as múltiplas faces da realidade não latejam, para alguns é algo que desatina.

Cada um tem seu jeito de interpretar ou não a realidade que o cerca. E, quanto mais estudo, leio, conheço autores que mostram outros lados das coisas, mais me dou conta da complexidade, o quanto há distintas formas de racionalidade. Pois faço esse preâmbulo para contar algo que já tratei aqui tempos atrás (confira aqui).

Não posso deixar de contar o quanto tudo que envolve estar em um coral marcou minha vida. Meus pais se conheceram em um coral em Porto Alegre na década de 1950. E que sou cria de coro infantil, onde tenho muitas memórias dos Rouxinóis do Jacuí (vale lembrar que essa espécie não é nativa daqui), coordenado pelo Irmão Rovílio Moro, que não era maestro, mas fazia acontecer no coro e na banda do Colégio Roque Gonçalves, em Cachoeira do Sul, minha terra natal. Participar de um grupo musical é importante para forjar tanta coisa: respeito, paciência, educação por todos os poros. É antes de tudo aguçar a sensibilidade, pois quando se canta se precisa escutar os demais, obedecer a regras, exercitar a atenção plena. Já se perguntou por que cada escola não dispõe de um coral? Seria uma baita forma de driblar a onipotência das telas e das más influências?

O chavão “a arte salva” inclui o quanto cantar também salva. O canto coral é algo mágico porque evidencia o universo de possibilidades que cada um dispõe e que é potencializado quando as vozes se unem em acordes. Reforço essa experiência porque neste dia 15 de agosto, às 19h, será celebrado o dia do patrimônio no nosso Estado de uma forma inusitada, na Casa de Cultura Mário Quintana. Há semanas estamos ensaiando em um coro de mais de 150 vozes para cantar espalhados pelas janelas, sacadas e passagens da Casa de Cultura que dão para a Travessa dos Cataventos. Uma experiência que nunca ninguém fez antes.

A função é coordenada pelo regente Eduardo Alves, atual presidente da Federação de Coros (Fecors), e tem a participação de coralistas de 24 corais da Capital e do Interior. A iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado pediu para que cantássemos 17 músicas conhecidas do repertório gaúcho de estilos e épocas variadas: desde Felicidade, do Lupicínio Rodrigues, até Canto Alegretense, de Euclides Fagundes Filho e Antonio Augusto Fagundes; de Vira Virou, entre outras do Kleiton e Kledir, até Querência Amada, do Teixeirinha; de O Amanhã Colorido, do Duca Leindecker até Canção da Meia Noite, do José Flávio de Oliveira; além de Amigo Punk, do Jorge Oliveira e Marcelo de Campos Velho Birck e Desgarrados, de Sérgio Napp e Mário Barbará.

Para quem não sabe, uma das manifestações artísticas mais presentes no nosso estado são os grupos que se reúnem para cantar. O Eduardo, que é regente do Viva La Vida, atual grupo do qual faço parte, e de mais seis grupos, estima que existam no Estado mais de três mil coros. Nosso estado tem uma mistura de etnias e tradições que favorecem esse tipo de manifestação artística. Isso sem falar das igrejas, que têm seus próprios grupos que cantam em missas, cultos, entre outras celebrações.

Por tudo isso, fico pensando com meus botões se não elevaria o status do canto coral, se ele fosse reconhecido como um patrimônio imaterial do Estado. Suspeito que nenhuma outra unidade da federação brasileira tenha tanta gente envolvida com esse tipo de manifestação artística. Há muitos argumentos que justificam esse incentivo para esse momento da história, onde o individualismo vem carcomendo o dia a dia. Produzir algo em grupo nos remete à importância da colaboração, da coletividade, do esforço de cada um em benefício de algo maior. Quem já experimentou viver a potência da colaboração por algo mais nobre que o próprio interesse sabe que precisamos exercitar formas diferentes de convivermos em sintonia. Num coro, o todo é mais importante que o indivíduo.

Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI.
Foto da Capa: Acervo da Autora / Divulgação

Texto originalmente publicado na SLER

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