Todos precisam expressar unidade, todas as vozes precisam soar como uma só voz. Cada voz é um instrumento
Se há pássaros e muitas outras espécies que se encontram para dar o seu recado através das suas cordas vocais, o Homo sapiens, de certa forma, também. E muitas vezes, para tocar não só as mentes – já que não é nada fácil criar e executar acordes harmônicos com vários indivíduos – mas também o coração, usa a massa cinzenta de forma bem sofisticada. Suspeito que isso é uma prova da nossa sapiência, além de saber usar os dedos polegar e indicador com destreza. Digo isso porque ultimamente o o nosso lado demens tem sido exibido muito. É tanta insanidade circulando, que temos necessidade de carregar as baterias (não as de celular, muito menos as de lítio) com coisas que elevem nossas almas.
Pois o tico e teco de vários cantores do Viva la vida, o coral que faço parte desde março de 2023, está ensaiando e se puxando para marcar corações e mentes de quem for assistir o show Resiliência, alusivo a uma década de trajetória do grupo. Afinal, não é pouca coisa não desistir de juntar gente para cantar não estando ligado a alguma instituição. O coro seguiu firme conectando os cantores durante os dois anos de pandemia. Também atuou cantando em abrigo e acolhendo os “abobados da enchente” do grupo que foram atingidos pelo desastre mais que climático de 2024.
Esses últimos anos não tem sido moleza para quem mora no Rio Grande do Sul. Isso não é novidade pra ninguém que habita por aqui. Por isso e muito mais que o coral serve como um refúgio para mim e outras pessoas. Tem gente que atravessa a cidade para estar no ensaio das segundas. Outros chegam atrasados porque saíram da labuta correndo para chegar ali e desconectar dos problemas.
Para quem não sabe como funciona, tentarei explicar brevemente. Até porque é uma atividade que exige dedicação, comprometimento e algum conhecimento musical. Escrevo algum, porque nem todo mundo solfeja partitura, mas tem noção do tempo das notas, se fica grave ou agudo ou do andamento da música.
O Viva la Vida é um grupo sui generis, arrisco em afirmar. Já cantei em outros corais ao longo da minha vida. Mas nesse, o regente é um diferencial porque está sempre nos surpreendendo. O maestro Eduardo Alves, além de ser muito engraçado e obstinado, tem um jeito, digamos, consistente e hilário de conduzir o grupo. É comum, no meio do ensaio, fazer com que o grupo volte aos trilhos, digo à pauta, em meio a trapalhadas entre as entradas, sustentações e cortes. A técnica vocal da Cíntia de los Santos é outro baita diferencial. Ela tem uma habilidade incrível para preparar a voz dos cantores para que possam atingir agudos, graves e expressar a intensidade da voz na hora certa.
A turma é diversa, o que significa muita troca e aprendizado entre 34 integrantes. Temos ele/ela/elu, gente dos 26 aos 70, gente do interior, da capital e de outros estados. Gordos, magros, maleados, altos, baixos, peles de muitas tonalidades. Uns com grana, outros sem nenhuma e uma maioria mediana que paga uma mensalidade para cobrir as despesas de aluguel de sala para ensaios e o pagamento dos coordenadores.
O que significa cantar em grupo
Cantar em coral é um exercício de viver em comunidade com regras pré definidas. Mas claro, tudo isso depende do grupo. A música é uma matemática. Em coral é uma matemática socioemocional. Sentir o quando o campo vai entrar no tom exige mais que ouvido e sensibilidade. Perspicácia? Liderança do maestro? Conseguir com que todos se comprometam e não faltem e cheguem no horário aos ensaios é um dos entraves para o sucesso de qualquer empreitada.
Talvez eu goste tanto de estar num coral porque é um jeito inusitado de um coletivo que dá certo. Quando todos se unem a mesma energia, em uma vibração, depois que todos sabem as notas, a dinâmica da música é algo mágico, como já citei aqui https://sler.com.br/canto-magico/. E aquele que destoa, desafina ou esquece a letra tem o colega do lado para chamar a atenção. Numa boa. E tudo bem.
Outro aspecto que marca o significado é que todos precisam expressar unidade, todas as vozes precisam soar como uma só voz. Cada voz é um instrumento. É o “um por todos, todos por um”. Depois que se aceita um compromisso, não dá para roer a corda. No ano passado, nos apresentamos em plena área de embarque da rodoviária da Capital, a convite de uma empresa de ônibus que nos pagou um cachê. Por mais de uma hora cantamos composições natalinas em meio ruídos e ao odor típico de onde circulam veículos a diesel. Foi interessante, não digo que foi confortável. Mas ver as carinhas das pessoas nos olhando admiradas, foi algo tocante, que nos fez vibrar de emoção.
Pedi para alguns colegas do grupo me mandarem o que significa para eles cantar em coro. E as respostas, foram plurais, mas todas no mesmo tom.
Vários colegas cantam em mais de um coral. O carioca Gabriel Rangel, por exemplo, está no Viva, no Coral da Sefaz, onde trabalha e no Expresso 25. Para ele, “cantar é o momento de desligar dos problemas, esquecer o trabalho e o estresse da rotina diária. A harmonia das vozes me energiza e sempre é um desafio gostoso aprender uma letra ou uma melodia nova”.
Maria de Fátima Marques, uma portuguesa bem brasileira, pois está aqui desde 1977, diz que “Cantar no Viva La Vida é uma grande honra e satisfação! Ali encontrei alegria, desafios musicais, repertório belíssimo, arranjos de tirar o fôlego e alimentar a alma… Tem friozinho na barriga? Tem, sim! Ainda mais eu, novata nessa história”. Quando solicitada na segunda à noite, ela responde satisfeita: “hoje não posso; tenho ensaio”. Ela ainda canta no coral do UFCSPA, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.
Paulo Alves Souza, o professor do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da UFRGS, além de tenor, é o tesoureiro do Viva. Ele entende que o ato de cantar lhe remete a uma conexão espiritual, por isso ele também integra o coral da PUCRS, cujo repertório é de músicas eruditas e sacras. Ele acredita que a música popular, o foco do Viva, precisa também de formas de divulgação. Ele acrescenta que o coral é um ótimo local para trocas, encontros entre pessoas, é um meio de convívio social, onde faz muitos amigos.
Para o biólogo Dener Deiques, o mais novo do grupo, “cantar é um exercício de liberdade interior, uma forma de dar voz ao que normalmente permanece em silêncio. É permitir que uma dimensão autêntica e vulnerável do meu ser se manifeste sem medo. Cantar em grupo é algo igualmente profundo, é permitir que a harmonia coletiva reorganize o caos mental que acumulamos no dia a dia”. Ele dá um duro danado para conseguir conciliar as demandas do doutorado na UFRGS e os compromissos coralísticos.
Já a Márcia Donat faz o resumo da ópera. Literalmente. “Cantar em bando é transformar diferenças em harmonia, é deixar que a soma seja maior que as partes. É ouvir-se no outro, é construir beleza e felicidade pra si e pro mundo. Cantar em bando é lavar a alma,” define a coralista que também se divide entre o Viva e o Coral da Sogipa. Pra mim, é tudo isso misturado em mais um pouco… Falo misturado porque temos um barítono, o farmacêutico Renato Chagas, que adora cantar ao lado de colegas de outros naipes. Só que para isso dar um bom resultado, é preciso ter segurança, saber bem o que está cantando e o que a música representa.
Então, que tal conferir o resultado de muitos meses de ensaio? O ano passado, não foi possível ter a apresentação devido ao desastre climático.
Confira a nossa programação para os dois dias no Meme Estação Cultural, 11 e 12 de outubro, às 19h.
Invocation – Amergin Glúingel e Música de Michael McGlynn
Com solos de Cíntia de los Santos, Gislaine Horn Lapa e Suellen Garcia Melo
Portal da cor – Milton Nascimento/Ricardo R. Silveira – Arranjo Cíntia de los Santos
Regência de Cíntia de los Santos
A Ponte – Lenine – Arranjo Zeca Rodrigues
Viva la Vida – Coldplay – Arranjo Jens Johansen
Por enquanto – Renato Russo – Arranjo Eduardo Alves
Dentro de um abraço – Rogério Flausino e PJ – Arranjo Eduardo Alves
Why should I cry for you – Gordon Sumner – Arranjo Jens Johansen
Earth song – Michael Jackson – Arranjo Eduardo Alves
Com solo de Gabriel Rangel
Sentir o meu amor (Make you feel my love) – Bob Dylan – Arranjo Eduardo Alves
Don’t give up – Peter Gabriel – Arranjo Jens Johansen
Com solos de Elena Muller, Juliana Andrade e Regina Leonini Machado.
Bridge over troubled water – Simon & Garfunkel – Arranjo Jens Johansen
Ingressos
Os ingressos são para pagar a locação do espaço e para a caixinha do Coral. Podem ser adquiridos com os integrantes do grupo. Solicitações podem ser feitas pelo Instagram @coralvivalavida, pelo email vivalavidarsbr@gmail.com ou pelo whattsApp 51.99318 5695.
Primeiro lote R$55,00 até 3 de outubro
Segundo lote R$85,00 até os dias do espetáculo
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Foto: Leandro Spencer, divulgação
Texto originalmente publicado na SLER




